Cara-da-Tábua + Entrevista: Giulio Sertori – Artista, Skatista e Video Maker de Bérgamo IT, morador de Curitiba

Exposição Virtual Cara-da-Tábua, de Decks de skatistas de Curitiba.Giulio Sertori está no Brasil, mais precisamente em Curitiba, a cerca de 6 anos, mas já tem participado de diversos projetos e interferido no cenário de skate da cidade. Seus trabalhos de vídeo sobre os “capivaras”, sua arte psicodélica, zine e seu model de shape já estão entre os trabalhos que considero muito bons entre as tantas ramificações culturais observadas no meio do skate nos últimos anos. Por conta do conjunto todo de produções, convidei Giulio à inserir seu deck na Galeria Cara-da-Tábua e mandei algumas perguntas para sanar algumas curiosidades. Fique aqui com uma entrevista realizada no início de 2021.

Entrevista com Giulio Sertori (@giugliodelia)

Jorle: Quem é você e como veio parar aqui, no Brasil?
Giulio: Salve, meu nome é Giulio Sertori, sou de Bergamo (Itália), e foi parar aqui, por visitar meu amigo Cristiano e ver como estava a situação da recente nascida Yeah Skateboards aqui no Brasil junto ao meu amigo Lorenzo Lupi (criador da Yeah Skateboards).
Em teoria era para Lorenzo ficar aqui no Brasil mas ele resolveu voltar para Itália e eu peguei o lugar dele, também porque conheci Amanda que sucessivamente virou minha esposa então depois de algumas idas e voltas, casei e fiquei aqui, se era só para o skateboarding ia ficar também na Italia, ainda bem que conheci Amanda ehehe.
Jorle: Você é artista, video maker e tem ligação com a marca Yeah Skateboards. Conte um pouco sobre estes seus trabalhos.
Giulio: Vamos esclarecer que eu não tenho nenhuma marca, a Yeah Skateboards na Itália é do Lorenzo e aqui dos irmãos Cristiano e Celmar, eu sempre fiz de trâmite dos dois continentes, faço parte de todas as decisões (team, produção)  mas principalmente sou o videomaker da marca e nesse momento que Cristiano está fora do país estou na linha de frente, mas a marca (como várias pessoas acham) não é minha.

Yeah Skateboards no Instagram

Aqui em Curitiba a minha vida partiu do zero então quis  focar nas artes plásticas, eu estudei “decoração” na Itália mas nunca exercitei a minha profissão então decidi de me “soltar” seguir o meu instinto e os meus sonhos artísticos, coisa que na Itália não fazia, pensava só em trabalhar, andar de skate e muitas vezes a minha visão era afetada da opinião dos outros.
A minha forma de me expressar era trâmite o skate, com videos e fotos rigorosamente analogicas (as fotos não eram só de skate) fazia por mim e para minha crew de amigos “Bergamo Fescion”, as fotos colocava no meu flickr (rip) e os vídeos mandava para os poucos mídias italianos, esses vídeos me trouxeram alguns trabalhos no mundo do skate italiano.
Agora aqui em Curitiba deixei a minha “veia artística” sem limites, na Itália a aparência conta muito e isso sempre me incomodou, também aqui importa, mas simplesmente foco em mim e não em que os outros podem pensam de mim, tento não deixar isso me afetar e talvez por isso, que aqui foi acolhido diferentemente, me sinto em casa e a vontade de expressar.Mas

 sempre chega aquele comentário chato “que drogas se usa?”, “que ácido se toma para desenhar assim?”, isso me decepciona bastante porque parece que uma pessoa não pode se expressar em modo psicodélico e colorido sem tomar drogas….minha cabeça é assim, não preciso de drogas para fazer algo de alternativo, parece que as pessoas perderam o contato com eles mesmos e não conseguem acessar a criatividade, no final as vezes só aplico cores complementares e a magia está feita, são umas “regras” de cores da arte.

Jorle: Recentemente você gravou com os skatistas da Yeah uma “vídeo parte” para o Eixo Mole Skate Zine, onde percebe-
se um estilo muito legal que mistura manobras antigas em meio às coisas novas. De onde vem esse formato de andar de skate?

Skate tem regra?

Giulio: Esse estilo veio do skateboarding sem datas e sem compromisso, hoje em dia a galera “moderna” anda como no vídeo “hokus pokus” e nem sabe, as vezes o que é novidade é somente uma releitura do que já foi feito no passado ou simplesmente parece novidade porque não conhece o passado.
Se fala que skate não tem regras, mas acho que é tudo um grande paradoxo, dependendo da época que se iniciou andar de skate, tem regras não escritas diferentes, e isso dá para ver nos diferentes roles das diferentes gerações, mas no final vai por conta dos próprios gostos, o que importa é se divertir e ser espontâneos, talvez seja isso o segreto da Yeah Skateboards, ser espontâneos.
O skateboarding é feito para quebrar as regras, mas isso não justifica algumas ações de vários skatistas, não é porque se dá um rolê da hora que se pode colocar acima de tudo mundo.
Shape inserido na Galeria Virtual Cara-da-Tábua, Jorle. Clique para visitar a Galeria.

Jorle: Te convidei a inserir seu modelo de shape na galeria Cara da Tábua, integrando um grupo de gente que teve sua arte, suas ideias ou apenas seu nome gravado na tábua e na história do skate de Curitiba. Conte um pouco sobre este seu “model”, e o material que acompanha o shape.

Giulio: Eu não considero esse o “meu modelo”, sim me representa, mas fiz por minha vontade, ninguém mandou fazer esse modelo além de eu eheheh.

Queria trazer meu blog de videos  “Filmerd” no papel, então pensei um modo legal de trazer a zine ao físico e como lançar a mesma.
Nunca sonhei de ter meu promodel, também porque isso significa ser professionista, mas sempre sonhei de ter uma gráfica feita por mim no meu shape e ver meus amigos andar com ele, no passado já realizei as minhas gráficas mas era sempre e só para mim.
A motivação de fazer a zine é porque cansei desse mundo instantâneo, obrigado ter feedback de volta, a galera de hoje vive demais o instantâneo e isso não dá valor a história do skateboarding, é tudo tão esquecível e fútil que se não sabe mais o que você fez, com um dígito se apaga ou muda algo que não era para ser mudado, as opiniões não são mais sinceras, muitos agem por conta da opinião dos outros, é bom ver os próprios erros porque é assim que se cresce, errando se aprende.
Se um dia não tiver mais energia para ligar os aparelhos eletrônicos tudo será esquecido, não vai ter aquele aplicativo que te lembrará o que se fez o ano passado….triste verdade do mundo moderno…escravitude digital.
Enfim foi a realização de vários sonhos, agora vou tentar fazer mais números da zine, com mais conteúdos, envolvendo mais pessoas, a capa já está pronta ehehhe.

Jorle: Manda aquele ‘salve’ e mensagem final.

Insta @giugliodelia

Giulio: Agradeço minha família, quem me suporta e quem me obstacula, tudo faz parte do processo então é bom agradecer, das dificuldades vem as melhores ideias.
Queria passar essa mensagem de acreditar em você mesmo, hoje em dia como nunca, tudo está ao nosso alcance, só focar e ser determinados.
Skatea forte contra a parede e que o Fescion esteja com vocês!

Jorle: Obrigado Giulio pelo tempo para responder às perguntas. Grande Abraço!

 

Apreciem a coleção digital Cara-da-Tábua e leia sobre outras contribuições clicando no link abaixo.

Caso queira contribuir, entre em contato!

Abraço.

Ricardo GosWod


Cara-da-Tábua

Exposição Virtual Cara-da-Tábua, de Decks de skatistas de Curitiba.

Projeto organizado pela Jorle que traz a reunião de diversas imagens de “models” do pessoal de Curitiba. O que chamamos de “models” no ambiente do skate é o conjunto de forma, ou corte, do “shape” junto com a arte estampada na face inferior. Por tradição no “esporte” os skatistas, quando fazem parte de alguma equipe, ou representam alguma empresa do ramo do skate, tem seus próprios “models”, ou seja, definem exatamente como querem o recorte da madeira, e fazem, ou convidam algum artista para fazer, o projeto gráfico estampado. Esta é uma importante característica que revela uma vasta cultura, expressão e modo de viver por trás da atividade física ou competitiva. Muitas vezes a arte estampada no “shape” representa um ponto de vista político ou cultural, ou mesmo quando aparentemente não há significado concreto, reflete preferências estéticas do skatista. De qualquer forma, é uma maneira de skatistas profissionais e amadores se comunicarem com sua comunidade e com o mundo externo, para o qual o skate e sua cultura seguem como algo curioso, às vezes obscuro, marginal, talvez incompreensível.


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